Erro da Nike com o Brasa foi um gol contra anunciado, diz especialista em comunicação intencional

Cristian Magalhães diz que empresa tentou fabricar posicionamento ignorando a cultura do torcedor

Em um movimento que já entra para a história como um dos maiores exemplos de ruído de comunicação no esporte brasileiro, a Nike lançou o novo uniforme da Seleção para a Copa do Mundo de 2026 com a expressão “Vai, Brasa” bordada na parte interna da gola e nos meiões. A rejeição foi imediata e unânime e colocou a Nike no centro da polêmica. Para o especialista em comunicação intencional Cristian Magalhães, há uma estratégia por trás disso que, ironicamente, expõe o vício mais perigoso do marketing contemporâneo, a tentativa de fabricar identidade sem ouvir quem realmente constrói a história. “Grandes marcas, às vezes, usam a mídia negativa para aparecer”, analisa Magalhães. “O choque gera burburinho, gera memória. Mas existe uma linha tênue entre provocar para ser lembrado e cometer um gol contra sem goleiro. E a Nike, nesse caso, não só passou da linha como entrou em campo com a camisa do adversário”, diz

A polêmica engrossou ainda mais quando a designer da Nike, Rachel Denti, explicou em vídeo a inspiração, afirmando que torcedores costumam usar a frase durante jogos, o que azedou de vez a situação da marca. O problema, segundo Cristian, é que essa “facilidade” existe apenas dentro da bolha de criação da agência. “Ninguém chama a seleção de Brasa, nem quando está jogando, nem em lugar nenhum. A reação foi unânime porque ficou óbvio que aquilo não nasceu do brasileiro.”
Ele compara o erro da Nike com um fenômeno que observa diariamente em seu trabalho de consultoria com profissionais liberais. “Isso não acontece só no futebol. Acontece todo dia com o profissional que tem 15, 20 anos de carreira, uma reputação construída e decide reposicionar a marca. De repente, o cara está lá no Instagram, publicando conteúdos aleatórios, usando um tom que não é dele. É o mesmo erro da Nike. Alguém de fora olhou para o Brasil e decidiu que o Brasil deveria ser desse jeito, sem perguntar para quem vive isso todo dia.”

A fala de Cristian reflete o sentimento de grande parte dos torcedores que foram às redes sociais criticar a iniciativa. O barulho foi tão grande que a CBF precisou intervir. O presidente da entidade, Samir Xaud, foi a público e afirmou que o uniforme seria modificado e não teria mais a frase usada pela empresa. A Nike teve que recuar e retirar a inscrição das próximas levas de produção. Na visão de Cristian Magalhães, a reviravolta serve de lição para qualquer profissional ou marca que tenta construir uma imagem sem alicerce. “No fim, a tentativa da Nike de torcer a linguagem da torcida acabou virando um exemplo didático de como o marketing não pode sobrepor a cultura. O Brasa apagou, e o que ficou foi a lição sem intencionalidade, até o maior patrocinador do futebol brasileiro pode levar um cartão amarelo do próprio torcedor”, conclui.

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